Parque Ecoindustrial de biogás no Semiárido: modelo PMBOK para economia circular em territórios de baixo IDH
RESUMO
Este artigo apresenta a proposta de estruturação de um Parque Ecoindustrial de biogás no Semiárido paraibano, com sede no município de Santa Terezinha/PB, tendo como referência territorial os 12 municípios da microrregião da Serra Teixeira. A metodologia adotada segue o Guia PMBOK 8ª edição em abordagem híbrida, combinando gerenciamento preditivo de fases com elementos adaptativos para contextos de alta incerteza institucional e econômica. O parque busca consolidar um ecossistema integrado de empresas operando na cadeia de valor do biogás — da biodigestão ao biometano, da cogeração à biofertilização, da reciclagem à medição, relato e verificação climática. A proposta parte do reconhecimento das vulnerabilidades estruturidades do território: IDH de 0,568, PIB de R$ 838,5 milhões distribuídos entre 84.746 habitantes e dependência de transferências públicas em torno de 71% dos municípios da região. Argumenta-se que o modelo de parque ecoindustrial, quando gerido com rigor metodológico e governança multiator, constitui instrumento eficaz de diversificação produtiva, geração de emprego qualificado e descarbonização em regiões historicamente marginalizadas. Os resultados esperados do primeiro ciclo de 24 meses incluem a criação do PMO, a elaboração do plano diretor do parque, o estudo de viabilidade técnica e econômica, e o lançamento do funil de atração de empresas-âncora.
Palavras-chave: parque ecoindustrial; biogás; semiárido paraibano; PMBOK 8ª edição; economia circular; desenvolvimento territorial; bioenergia; IDH baixo.
1 INTRODUÇÃO
O Semiárido brasileiro constitui um dos territórios de maior complexidade socioeconômica e ambiental do país. Com precipitações irregulares, solos susceptíveis à desertificação e uma estrutura produtiva historicamente dependente da agropecuária extensiva e das transferências governamentais, os municípios inseridos nesse bioma enfrentam desafios estruturais que as políticas convencionais de desenvolvimento têm demonstrado capacidade limitada de superar (MALVEZZI, 2007; SILVA, 2010).
A microrregião da Serra Teixeira, no Sertão paraibano, exemplifica esse quadro com precisão. Composta por 12 municípios — entre eles Santa Terezinha, Teixeira, Matureia, Imaculada e São José de Caiana —, a região registra um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) médio de 0,568, PIB agregado da ordem de R$ 838,5 milhões para uma população de 84.746 habitantes (IBGE, 2022). A estrutura do PIB revela a dependência estrutural: a Administração Pública responde por aproximadamente 48,3% do valor adicionado regional, enquanto a Agropecuária contribui com 28,7%. A dependência de transferências constitucionais e voluntárias situa-se em torno de 71% nas finanças municipais da região.
Diante desse cenário, a proposta do Parque Ecoindustrial USE Biogás-PB emerge como alternativa estrutural de desenvolvimento territorial sustentável. O parque propõe a criação de um ecossistema produtivo organizado em torno da cadeia de valor do biogás e do biometano, integrando empresas de biodigestão, compressão, tratamento de gás, cogeração energética, irrigação de precisão, produção de biofertilizantes, reciclagem de resíduos orgânicos, manufatura de materiais de construção sustentáveis, sensoramento e monitoramento climático (MRV).
A estruturação do parque é orientada pelo Guia PMBOK 8ª edição (PMI, 2021) em abordagem híbrida, reconhecendo que projetos de desenvolvimento territorial em contextos de baixo IDH não se adequam a modelos preditivos rígidos, mas também não prescindem de estrutura, rigor e controle para atrair investimentos privados e garantir a entrega de valor público.
O presente artigo organiza-se em seis seções. A Seção 2 apresenta a revisão de literatura sobre parques ecoindustriais, economia circular no Semiárido e a metodologia PMBOK 8ª edição. A Seção 3 descreve a metodologia adotada para estruturação da proposta. A Seção 4 detalha a proposta do parque em seus aspectos estruturais, de governança e faseamento. A Seção 5 analisa a viabilidade e os principais riscos. A Seção 6 apresenta as considerações finais.
2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Parques Ecoindustriais: conceito e evidências internacionais
O conceito de parque ecoindustrial (PEI) emergiu no campo da Ecologia Industrial a partir dos trabalhos pioneiros de Frosch e Gallopoulos (1989), que propuseram a analogia entre ecossistemas naturais e sistemas industriais: assim como na natureza os resíduos de um organismo constituem insumo para outro, a produção industrial poderia ser organizada de modo a eliminar desperdícios por meio de simbioses entre empresas geograficamente concentradas.
Chertow (2000) sistematizou o conceito de simbiose industrial e distinguiu diferentes modalidades de parques industriais com base no grau de integração material e energética entre as empresas participantes. A autora identificou que o nível mais avançado de simbiose — caracterizado por trocas planejadas e geridas coletivamente — produz os maiores ganhos em eficiência de recursos e redução de emissões, mas também exige governança sofisticada e investimento em capital social entre as firmas.
O caso de Kalundborg, na Dinamarca, tornou-se o paradigma mundial de simbiose industrial. Iniciado de forma espontânea nas décadas de 1970 e 1980, o complexo industrial de Kalundborg envolve uma usina termelétrica, uma refinaria de petróleo, uma empresa farmacêutica, uma empresa de materiais de construção e a municipalidade local em uma rede de trocas de vapor, água, cinzas, enxofre e outros subprodutos (JACOBSEN, 2006). A experiência demonstrou que a simbiose industrial pode gerar ganhos econômicos substantivos enquanto reduz o impacto ambiental do conjunto.
No contexto brasileiro, os parques ecoindustriais ainda são iniciativas incipientes, mas crescentes. Estudos como os de Malheiros, Coutinho e Philippi Jr. (2012) e Caldas e Caldas (2018) apontam que o modelo apresenta potencial significativo para regiões com alta disponibilidade de biomassa e resíduos agroindustriais, como o Nordeste brasileiro. A combinação de pecuária intensiva, agroindústria de cana-de-açúcar, sisal e fruticultura irrigada gera fluxos de resíduos orgânicos que, na ausência de sistemas organizados de aproveitamento, representam passivos ambientais e oportunidades de negócio desperdiçadas.
Figueiredo e Araújo (2020) analisaram experiências de biogás em pequenos municípios nordestinos e identificaram que a principal barreira não é tecnológica, mas de organização do ecossistema empresarial: a escassez de fornecedores especializados, a ausência de mão de obra técnica local e a insegurança jurídica em torno da comercialização do biogás freiam investimentos que tecnicamente seriam viáveis.
2.2 Economia Circular no Semiárido: potencialidades e limites
A transição para uma economia circular no Semiárido brasileiro apresenta características específicas que a distinguem das experiências europeias e do Centro-Sul brasileiro. Nesse território, a escassez de água, a degradação do solo e a vulnerabilidade climática não são apenas problemas a resolver — são também a lógica que torna o aproveitamento cíclico de recursos especialmente valioso.
O Semiárido abriga o maior rebanho caprino e ovino do país, além de expressiva pecuária bovina em condições de sequeiro. Esses rebanhos geram volumes significativos de dejetos que, adequadamente manejados em biodigestores, podem produzir biogás para uso energético e biofertilizante para reposição de nutrientes do solo degradado (SILVA; MELO; ALVES, 2014). O biofertilizante, por sua vez, pode ser utilizado na produção de forragem em sistemas de irrigação de baixo consumo, fechando um ciclo que aumenta a resiliência produtiva das propriedades rurais frente às secas.
Campos e Leite (2011) demonstraram que comunidades do Semiárido que adotaram sistemas de aproveitamento integrado de dejetos apresentaram melhor desempenho zootécnico e menor vulnerabilidade à variabilidade climática, comparativamente a comunidades similares que não adotaram tais sistemas. O estudo aponta que a barreira principal é a falta de acesso a crédito e assistência técnica especializada, não a viabilidade técnica dos sistemas.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) e a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio, Lei 13.576/2017) criaram marcos regulatórios favoráveis à bioeconomia no Semiárido. No entanto, a aplicação efetiva dessas políticas em municípios de pequeno porte com baixa capacidade institucional permanece um desafio (LEAL, 2018).
A Resolução 859/2024 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) introduziu um regime experimental por projeto-piloto para o biometano, reduzindo barreiras regulatórias para empreendimentos inovadores em escala menor. Essa regulação cria janela de oportunidade específica para parques ecoindustriais de biogás em territórios como a Serra Teixeira.
2.3 PMBOK 8ª Edição: abordagem híbrida e gestão por benefícios
O Guia PMBOK (Project Management Body of Knowledge), em sua 8ª edição publicada pelo Project Management Institute em 2021, representa uma evolução significativa em relação às edições anteriores. Enquanto as versões anteriores organizavam o gerenciamento de projetos em grupos de processos (iniciação, planejamento, execução, monitoramento/controle, encerramento), a 8ª edição adota uma estrutura orientada a princípios e domínios de desempenho, reconhecendo explicitamente que projetos complexos requerem abordagens adaptativas e híbridas (PMI, 2021).
Os doze princípios do PMBOK 8ª edição incluem, entre outros: ser um administrador diligente, respeitoso e cuidadoso; criar um ambiente colaborativo de equipe de projeto; engajar efetivamente com as partes interessadas; focar no valor; reconhecer, avaliar e responder às interações do sistema; demonstrar comportamentos de liderança; adaptar com base no contexto; construir qualidade nos processos e nos resultados; navegar na complexidade; otimizar as respostas ao risco; adotar adaptabilidade e resiliência; e possibilitar mudança para alcançar o estado futuro envisioned (PMI, 2021).
Para projetos de desenvolvimento territorial em contextos de alta incerteza — como é o caso de parques ecoindustriais em regiões de baixo IDH —, a abordagem híbrida do PMBOK 8ª edição é especialmente adequada. A gestão por benefícios (benefits realization management) orienta as decisões de projeto não apenas pelo cumprimento de prazos e orçamentos, mas pela verificação periódica de que o projeto continua gerando o valor esperado para as partes interessadas (MELTON; ILES-SMITH, 2010; PMI, 2019).
O conceito de stage-gates — portões de decisão ao final de cada fase, nos quais o projeto é avaliado quanto à viabilidade de continuação — é especialmente relevante para projetos de infraestrutura em territórios vulneráveis, pois permite que o patrocinador decida pela continuação, modificação ou encerramento do projeto com base em evidências concretas, reduzindo o risco de comprometimento irreversível de recursos em projetos inviáveis (COOPER, 2014).
3 METODOLOGIA
A estruturação da proposta do Parque Ecoindustrial USE Biogás-PB seguiu metodologia qualitativa e exploratória, combinando pesquisa documental, análise territorial e elaboração de framework de gestão de projetos.
A pesquisa documental abrangeu: (a) legislação federal e estadual aplicável à bioenergia, gestão de resíduos e parques industriais; (b) dados do IBGE sobre a microrregião da Serra Teixeira; (c) estudos acadêmicos sobre parques ecoindustriais e bioeconomia no Semiárido; (d) regulamentações da ANP, especialmente a Resolução 859/2024; (e) documentos do PMBOK 8ª edição e literatura especializada em gestão de projetos complexos.
A análise territorial combinou dados secundários do IBGE (Censo 2022, PNAD, PIB municipal) com informações qualitativas obtidas junto a atores locais e regionais. O objetivo foi caracterizar o perfil socioeconômico e as potencialidades produtivas da microrregião sob perspectiva de viabilidade para implantação do parque ecoindustrial.
O framework de gestão foi elaborado com base nos princípios e domínios de desempenho do PMBOK 8ª edição, adaptados ao contexto específico de um projeto de desenvolvimento territorial em região de baixo IDH. A abordagem híbrida foi adotada para equilibrar a necessidade de estrutura e previsibilidade (essencial para atração de investimentos privados) com a flexibilidade necessária para navegar as incertezas regulatórias, políticas e mercadológicas inerentes ao estágio inicial do projeto.
4 PROPOSTA DO PARQUE ECOINDUSTRIAL USE BIOGÁS-PB
4.1 Estrutura do Ecossistema Produtivo
O Parque Ecoindustrial USE Biogás-PB é concebido como um ecossistema produtivo integrado, organizado em torno da cadeia de valor do biogás e do biometano, com abrangência territorial nos 12 municípios da microrregião da Serra Teixeira e sede operacional em Santa Terezinha/PB.
O ecossistema é estruturado em cinco camadas produtivas interconectadas:
Camada 1 — Geração de Biomassa e Substratos: Inclui propriedades rurais com sistemas de biodigestão anaeróbica de dejetos animais (bovinos, caprinos, ovinos, suínos), resíduos agroindustriais (palma forrageira, sisal, resíduos de abatedouros) e resíduos sólidos orgânicos urbanos. Essa camada constitui a base de suprimento de matéria-prima do parque.
Camada 2 — Processamento e Purificação de Biogás: Empresas especializadas em biodigestão industrial, upgrading de biogás para biometano (tecnologias de water scrubbing, membrane separation ou pressure swing adsorption), compressão e controle de qualidade do gás. A Resolução 859/2024-ANP estabelece os parâmetros técnicos aplicáveis aos projetos-piloto nessa camada.
Camada 3 — Distribuição e Uso Energético: Infraestrutura de dutoviária de pequena escala para distribuição de biometano entre empresas do parque, sistemas de cogeração (calor e eletricidade), conexão com a rede elétrica (micro e minigeração distribuída, conforme Lei 14.300/2022), e abastecimento de veículos a biometano para logística agrícola.
Camada 4 — Produtos Derivados e Simbiose Industrial: Produção e comercialização de biofertilizante líquido e sólido; sistemas de irrigação de precisão integrados ao uso de biofertilizante; manufatura de blocos e painéis de construção civil com resíduos de biodigestão; reciclagem de resíduos inorgânicos gerados no processo.
Camada 5 — Serviços de Suporte e MRV: Empresas especializadas em sensoramento ambiental, instalação e operação de estações de monitoramento de qualidade do ar e do solo, sistemas de medição, relato e verificação (MRV) de créditos de carbono, tecnologia da informação para gestão integrada do parque, e consultoria em conformidade regulatória e acesso a incentivos fiscais.
Estima-se que, em sua maturidade, o parque deva abrigar entre 20 e 35 empresas operando nessas cinco camadas, com potencial de geração direta e indireta de empregos formais qualificados em uma região onde o setor privado formal é historicamente escasso.
4.2 Governança
A estrutura de governança do Parque Ecoindustrial USE Biogás-PB é baseada em quatro instâncias principais:
Conselho Patrocinador: Formado pela Fundação Rimídia Gayoso e pela USECO₂, é responsável pela aprovação estratégica do projeto, pela mobilização de recursos institucionais e financeiros, pela representação junto a entes governamentais e por decisões nos stage-gates de cada fase. O conselho delibera por consenso e se reúne trimestralmente, com reuniões extraordinárias quando necessário.
Direção Executiva: Exercida por Isabelle Machado Serrano Araújo Gomes Gayoso, com apoio do PMO (Project Management Office), é responsável pela gestão cotidiana do projeto, pela implementação das decisões do Conselho Patrocinador e pela coordenação das demais instâncias. A Direção Executiva responde ao Conselho Patrocinador e tem autoridade delegada para decisões operacionais dentro dos limites aprovados no plano do projeto.
Comitê Técnico: Composto por especialistas em bioenergia, engenharia ambiental, direito regulatório, economia circular e gestão de projetos, o Comitê Técnico assessora a Direção Executiva em questões especializadas, valida estudos e laudos técnicos, e participa dos processos de due diligence de empresas candidatas ao parque.
Comitê Comunitário: Instância de participação social que integra representantes das comunidades rurais e urbanas da microrregião, organizações da sociedade civil, lideranças tradicionais e representantes do poder público municipal. O Comitê Comunitário é o espaço de consulta e consentimento para decisões que afetem comunidades locais, e funciona como canal de retroalimentação sobre os impactos sociais e territoriais do projeto.
Essa estrutura de governança reflete os princípios da Lei 14.113/2020 (Fundeb) e da legislação sobre participação social, e está alinhada com as melhores práticas internacionais de governança de parques industriais em contextos de desenvolvimento territorial (WORLD BANK, 2017).
4.3 Faseamento e Gestão por Stage-Gates
O projeto é estruturado em três fases, cada uma terminando com um stage-gate que habilita (ou não) o avanço para a fase seguinte.
Fase 1 — Estruturação e Planejamento (meses 1 a 12):
O primeiro ano é dedicado à construção das bases institucionais, técnicas e mercadológicas do parque. As entregas principais são: (a) constituição formal e operacionalização do PMO; (b) levantamento e organização de documentação no data room do projeto (licenças, estudos ambientais, cadastros fundiários, histórico de transferências de recursos, legislação aplicável); (c) elaboração do estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental; (d) elaboração do plano diretor do parque, definindo zoneamento, infraestrutura, regulamento interno e parâmetros de elegibilidade de empresas; (e) lançamento do programa de atração de empresas, com identificação e abordagem de empresas-âncora em nível nacional e regional; (f) estruturação da trilha de acesso à Lei do Bem (Lei 11.196/2005) e demais incentivos fiscais aplicáveis; (g) estabelecimento de diálogos iniciais com SEFAZ-PB para exploração das condições de acesso ao FAIN/ICMS.
Stage-Gate 1: Ao final do mês 12, o Conselho Patrocinador avalia: (i) se o estudo de viabilidade confirma a atratividade econômica do parque; (ii) se o plano diretor está aprovado e os processos de licenciamento ambiental em andamento; (iii) se há pelo menos três empresas-âncora com interesse formal manifestado; (iv) se os instrumentos de governança estão operacionais. Somente com aprovação em todos esses critérios o projeto avança para a Fase 2.
Fase 2 — Atração e Pré-implantação (meses 13 a 24):
O segundo ano é voltado à consolidação do funil comercial de empresas e ao início dos processos formais de implantação. As entregas principais são: (a) formalização de cartas de intenção ou memorandos de entendimento com empresas-âncora; (b) desenvolvimento do modelo de negócios detalhado do parque, incluindo projeções financeiras, modelos de receita e estrutura de taxas de ocupação; (c) avanço nos processos de licenciamento ambiental junto ao SUDEMA/IBAMA; (d) instrução dos pedidos de acesso ao FAIN junto à CINEP e das condições do TARE com SEFAZ-PB; (e) desenvolvimento do projeto conceitual de infraestrutura (acesso viário, energia, água, saneamento, telecomunicações); (f) lançamento do programa Escola Eco Caatinga Viva em parceria com instituições de ensino técnico e superior da região; (g) elaboração e submissão de projetos a editais e fundos públicos (Fundo Clima, BNDES Mais Inovação, BNB Floresta Viva).
Stage-Gate 2: Ao final do mês 24, o Conselho Patrocinador avalia: (i) se há demanda empresarial suficiente para justificar o CAPEX de infraestrutura; (ii) se os licenciamentos estão em estágio que permite início das obras; (iii) se há fontes de financiamento para a infraestrutura; (iv) se os instrumentos jurídicos com poder público estão celebrados ou em vias de celebração. A decisão sobre o início do CAPEX industrial é tomada somente após esse gate.
Fase 3 — Implantação e Operação Inicial (a partir do mês 25):
O CAPEX de infraestrutura e as obras de implantação das primeiras instalações do parque ocorrem somente após a aprovação no Stage-Gate 2. Essa decisão assegura que investimentos irreversíveis em ativos físicos só sejam realizados quando há demanda confirmada, licenças obtidas, insumos assegurados e empresas-âncora formalizadas.
5 VIABILIDADE E RISCOS
5.1 Dimensão Econômica
A análise de viabilidade econômica do Parque Ecoindustrial USE Biogás-PB deve ser conduzida de forma cautelosa, reconhecendo as incertezas inerentes a um projeto em fase de estruturação. Algumas dimensões são claramente favoráveis:
O mercado de biometano no Brasil tem registrado crescimento acelerado desde a publicação da Resolução ANP 685/2017 e, especialmente, após a aprovação da Resolução 859/2024, que criou regime experimental favorável a projetos-piloto. Estudos da EPE (2023) projetam crescimento expressivo da participação do biometano na matriz energética brasileira ao longo da próxima década, com demanda crescente tanto no setor de transporte quanto no industrial.
A disponibilidade de biomassa na microrregião da Serra Teixeira é atestada pelos dados do IBGE (2022): o rebanho bovino, caprino e ovino da região gera volumes expressivos de dejetos com potencial de biodigestão. O aproveitamento desse potencial, hoje desperdiçado ou manejado de forma inadequada, representa oportunidade real de geração de valor econômico com benefício ambiental simultâneo.
Os custos de implantação do CAPEX industrial são, por outro lado, substanciais e dependentes de fontes de financiamento que precisam ser estruturadas antes da tomada de decisão de investimento. O modelo de parque ecoindustrial reduz os custos individuais de infraestrutura para as empresas participantes por meio do compartilhamento de utilidades, mas exige capital inicial para a implantação das instalações coletivas.
5.2 Dimensão Regulatória e Fiscal
A obtenção de incentivos fiscais do FAIN/ICMS-PB não é automática. O processo envolve: apresentação de projeto econômico-financeiro detalhado ao CINEP (Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia); deliberação pelo Conselho de Administração do FAIN; emissão de Decreto do Governador ratificando a deliberação; e celebração de Termo de Acordo de Regime Especial (TARE) com a SEFAZ-PB. Cada etapa desse processo tem prazos e exigências próprias, e o resultado não é garantido a priori.
A proposta de um instrumento de "ICMS Zero Carbono" — diferentemente do ICMS Ecológico já existente na Paraíba — é uma política a ser construída em diálogo com o poder público estadual, não um benefício atualmente assegurado por lei. Sua viabilização depende de negociação política e processo legislativo ou regulamentar, o que introduz incerteza temporal e substantiva no planejamento do projeto.
A Lei do Bem (Lei 11.196/2005) permite que pessoas jurídicas que realizem atividades de pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica usufruam de deduções de impostos. O acesso ao benefício não é feito por inscrição prévia, mas pelo cumprimento das condições legais pelas PJs elegíveis, com posterior informação ao MCTI por meio do formulário FORMP&D. A instrução dessa trilha para as empresas residentes no parque é um dos serviços de suporte que o parque pode oferecer como diferencial competitivo.
5.3 Gestão de Riscos
Seguindo os princípios do PMBOK 8ª edição, identificam-se os seguintes riscos principais do projeto:
Risco 1 — Baixa adesão de empresas-âncora: A ausência de empresas de referência no parque pode comprometer a legitimidade do empreendimento e dificultar a captação das demais. Estratégia de resposta: desenvolvimento de funil comercial robusto com apoio de redes nacionais de bioenergia (AbioGás, ABIOGAS, BNDES) e parcerias com universidades regionais (UFCG, UFPB) para identificação e atração de empresas inovadoras.
Risco 2 — Atrasos regulatórios: Licenciamentos ambientais e processos de acesso a incentivos fiscais frequentemente extrapolam os prazos estimados. Estratégia de resposta: início imediato dos processos regulatórios na Fase 1; uso de consultoria especializada em direito ambiental e tributário paraibano; construção de relações institucionais com SUDEMA, SEFAZ-PB e CINEP.
Risco 3 — Instabilidade política municipal: Mudanças nas administrações municipais após eleições podem alterar o apoio institucional ao projeto. Estratégia de resposta: formalização de convênios e acordos de cooperação com os municípios da região antes das eleições de 2028; construção de base comunitária sólida que transcenda ciclos eleitorais.
Risco 4 — Disponibilidade de mão de obra técnica: A região carece de técnicos especializados em bioenergia e gestão ambiental. Estratégia de resposta: programa Escola Eco Caatinga Viva para formação de mão de obra local, em parceria com SENAI-PB e IFPBs da região.
Risco 5 — Variabilidade climática e disponibilidade hídrica: Secas prolongadas podem afetar tanto a produção de biomassa quanto a operação dos biodigestores. Estratégia de resposta: seleção de substratos e tecnologias resilientes à escassez hídrica; dimensionamento de sistemas de armazenamento de água.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Parque Ecoindustrial USE Biogás-PB representa uma proposta consistente e inovadora de desenvolvimento territorial sustentável no Semiárido paraibano. Ao combinar a lógica da economia circular com a metodologia rigorosa do PMBOK 8ª edição, o projeto busca superar as limitações das iniciativas pontuais e desarticuladas que caracterizaram as tentativas anteriores de diversificação produtiva na região.
A adoção de uma abordagem de faseamento com stage-gates é decisiva para a credibilidade do projeto diante de investidores privados e parceiros institucionais. Ao subordinar o CAPEX industrial à confirmação de demanda, licenciamentos obtidos, insumos assegurados e empresas-âncora formalizadas, o projeto demonstra maturidade gerencial e respeito pelo dinheiro público e privado que eventualmente será mobilizado.
A estrutura de governança multiator — com Conselho Patrocinador, Direção Executiva, Comitê Técnico e Comitê Comunitário — assegura que o projeto sirva simultaneamente a interesses empresariais, institucionais e comunitários, evitando a captura do projeto por um único ator ou grupo de interesse.
Os próximos passos incluem a constituição formal do PMO, o lançamento do processo de elaboração do estudo de viabilidade, e o início do diálogo com potenciais empresas-âncora e parceiros institucionais. A Fundação Rimídia Gayoso e a USECO₂, como patrocinadoras do projeto, comprometem-se com a transparência, a participação social e o rigor técnico em todas as etapas dessa jornada.
O Semiárido não é apenas um território de carências. É também um território de potencialidades — em biomassa, em energia solar, em saberes tradicionais e em resiliência humana — que aguarda um projeto à altura de seu potencial. O Parque Ecoindustrial USE Biogás-PB é uma aposta nessa potencialidade.
REFERÊNCIAS
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