Carbonômetro territorial: modelo de triagem climática para municípios do Semiárido
RESUMO
O presente artigo apresenta o Carbonômetro, módulo de triagem climática da plataforma U.S.E. (USECO₂), concebido para apoiar municípios do Semiárido brasileiro na estimativa preliminar de estoque e fluxo de carbono territorial, na indicação de necessidade de inventários formais de biomassa, solos e emissões, na sugestão de metodologias de certificação aplicáveis e na identificação de insuficiências técnicas que impediriam o avanço para processos plenos de MRV. O modelo não cria créditos de carbono automaticamente, não substitui inventários de campo e não emite certificados de redução ou remoção verificada de emissões. Fundamentando-se nas diretrizes do IPCC Tier 1 (2019) e nas taxas de referência para a Caatinga — de 1,5–3,0 tCO₂/ha/ano em zonas hiperxerófilas a 5,0–7,0 tCO₂/ha/ano em encostas úmidas —, o modelo gera cenários de remoção anual com intervalo de confiança explícito. A aplicação ao Parque Nacional Serra do Teixeira (61.095 ha) indica potencial de 0,09 a 0,43 MtCO₂e/ano, sujeito a confirmação por inventário de campo e auditoria independente.
Palavras-chave: Carbonômetro. Triagem climática. Inventário de carbono. Semiárido. Caatinga. MRV.
ABSTRACT
This article presents the Carbonômetro, the climate triage module of the U.S.E. platform (USECO₂), designed to support municipalities in the Brazilian Semi-arid region in the preliminary estimation of territorial carbon stock and flux, in identifying the need for formal inventories, in suggesting applicable certification methodologies, and in flagging technical insufficiencies that would prevent progress to full MRV processes. The model does not automatically generate carbon credits, does not replace field inventories, and does not issue verified emission reduction or removal certificates. Drawing on IPCC Tier 1 (2019) guidelines and reference rates for the Caatinga biome, the model generates annual removal scenarios with explicit confidence intervals. Application to the Serra do Teixeira National Park (61,095 ha) yields an indicative potential of 0.09 to 0.43 MtCO₂e/year, subject to confirmation by field inventory and independent audit.
Keywords: Carbonômetro. Climate triage. Carbon inventory. Semi-arid. Caatinga. MRV.
1 INTRODUÇÃO
O Semiárido brasileiro concentra, paradoxalmente, dois fenômenos que raramente coexistem com tal intensidade: a vulnerabilidade socioambiental extrema e o potencial climático sistematicamente negligenciado. Com mais de 1.100 municípios distribuídos por nove estados e cerca de 27 milhões de habitantes, a região semiárida abriga o bioma Caatinga — único bioma exclusivamente brasileiro —, cujas florestas tropicais secas, savanas estépicas e formações rupestres guardam estoques significativos de carbono que permanecem contabilmente invisíveis na maior parte das agendas climáticas regionais e nacionais (SILVA et al., 2017; MMA, 2023).
A invisibilidade climática do Semiárido não resulta da ausência de potencial biofísico. Resulta, antes, da assimetria entre a complexidade técnica e o custo financeiro exigidos pelos processos formais de certificação de carbono e a realidade administrativa dos municípios da região. Um inventário florestal completo, com amostragem estatisticamente representativa, análise multicompartimento de biomassa e verificação por auditor acreditado internacionalmente, pode demandar entre R$ 400.000 e R$ 2.000.000 e um prazo de 18 a 36 meses (VERRA, 2024; IPCC, 2019). Para um município do Sertão paraibano com orçamento anual de R$ 15 milhões e equipe técnica ambiental de dois servidores, essa barreira é intransponível sem mecanismos intermediários de triagem e planejamento.
É neste contexto de assimetria que o Programa USECO₂ desenvolveu o Carbonômetro, módulo de triagem climática da plataforma U.S.E. (Unidade de Serviços Ecossistêmicos). O Carbonômetro não é um sistema de certificação de créditos de carbono. Sua função é anterior, distinta e metodologicamente mais modesta — mas não menos útil: estimar, com base em taxas de referência validadas pela literatura científica e pelas diretrizes do IPCC, o potencial de estoque e fluxo de carbono de uma área municipal; indicar quais metodologias de certificação são mais adequadas ao contexto local; apontar as lacunas de dados que precisam ser preenchidas por inventário de campo; e gerar um relatório estruturado de elegibilidade climática que fundamente a decisão sobre o investimento em certificação plena (USECO₂, 2025).
A distinção entre triagem e certificação não é mero detalhe técnico. É uma distinção de natureza epistemológica, ética e regulatória. Uma ferramenta honesta de triagem deve ser explicitamente preliminar, conservadora e declarativa de suas incertezas. Quando uma ferramenta de triagem se apresenta como se entregasse precisão que apenas o inventário de campo pode produzir, compromete a integridade do mercado voluntário de carbono, gera expectativas irrealistas nos gestores municipais e expõe projetos a cancelamentos e litígios durante o processo de auditoria.
O artigo está estruturado em seis seções. A Seção 2 apresenta a fundamentação teórica, abrangendo a contabilidade de carbono territorial (2.1), as metodologias de certificação internacional disponíveis (2.2) e a distinção conceitual entre triagem e certificação (2.3). A Seção 3 descreve o modelo do Carbonômetro — sua arquitetura (3.1), variáveis e fórmulas (3.2) e outputs (3.3). A Seção 4 apresenta a aplicação aos 12 municípios da Serra do Teixeira, com análise do Parque Nacional Serra do Teixeira. A Seção 5 discute limitações e recomendações. A Seção 6 apresenta as considerações finais.
O objetivo geral é demonstrar que a triagem climática territorial automatizada, quando metodologicamente rigorosa e transparente, constitui instrumento de planejamento de alto valor para municípios com baixa capacidade técnica. Os objetivos específicos são: (i) fundamentar as taxas de referência de carbono para a Caatinga em bases científicas robustas; (ii) descrever a arquitetura do Carbonômetro e suas relações com os padrões de certificação internacionais; (iii) aplicar o modelo à região da Serra do Teixeira e interpretar seus resultados à luz de suas limitações; e (iv) formular recomendações de política pública para escalabilidade do modelo nos municípios do Semiárido paraibano.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Contabilidade de Carbono Territorial
A contabilidade de carbono territorial constitui o conjunto de métodos, protocolos e sistemas de informação destinados a medir, estimar, relatar e verificar os estoques e fluxos de gases de efeito estufa em uma unidade geográfica delimitada. Diferentemente dos inventários corporativos de emissões, que focalizam as emissões operacionais de uma organização, a contabilidade territorial integra fontes e sumidouros de carbono — cobertura florestal, uso do solo, atividades agropecuárias, resíduos e energia — em um balanço líquido referenciado geograficamente (IPCC, 2019; SEEG, 2023).
O principal referencial metodológico para a contabilidade territorial de carbono são as Diretrizes do IPCC para Inventários Nacionais de Gases de Efeito Estufa, cujo Refinamento de 2019 às Diretrizes de 2006 representa o estado atual da arte metodológica (IPCC, 2019). Para o setor de uso da terra, mudança do uso da terra e florestas (LULUCF), o IPCC estrutura a contabilidade em três níveis de sofisticação crescente: Tier 1, Tier 2 e Tier 3.
O Tier 1 utiliza fatores de emissão e remoção padrão fornecidos pelo próprio IPCC, derivados de médias globais e regionais. Para florestas tropicais sazonalmente secas na América do Sul — categoria que abrange o bioma Caatinga —, o IPCC (2019) indica um incremento líquido anual de biomassa acima do solo de aproximadamente 1,0 tonelada de matéria seca por hectare ao ano. Aplicando a fração de carbono na biomassa seca de 0,47 (IPCC, 2019) e o fator de conversão molecular CO₂/C de 44/12 = 3,667, obtém-se:
1,0 tMS/ha/ano × 0,47 C/MS × 3,667 CO₂/C ≈ 1,72 tCO₂/ha/ano
Este é o piso conservador utilizado pelo Carbonômetro para avaliações sem dados locais disponíveis. É deliberadamente conservador porque considera exclusivamente a biomassa viva acima do solo, omitindo biomassa subterrânea, necromassa, serrapilheira e carbono orgânico do solo — compartimentos que podem representar entre 30% e 80% do estoque total em ecossistemas de Caatinga, dependendo da fitofisionomia e do tipo de solo (SAMPAIO; COSTA, 2011; MAIA et al., 2010).
O Tier 2 incorpora fatores de emissão específicos do país ou da região, derivados de medições locais. Para a Caatinga, estudos sistemáticos de campo indicam ampla variação nas taxas de sequestro, reflexo da heterogeneidade fitofisionômica do bioma. Pesquisas conduzidas por Sampaio e Costa (2011), Lima et al. (2019) e Nogueira et al. (2015) apontam taxas de acúmulo de biomassa em áreas de regeneração da Caatinga entre 0,8 e 3,2 tC/ha/ano — convertendo para CO₂ equivalente pelo fator 3,667, o intervalo corresponde a 2,9 a 11,7 tCO₂/ha/ano, com as taxas mais elevadas restritas a Caatingas serranas de altitude em boas condições de regeneração.
O Tier 3 fundamenta-se em modelos de alta resolução e medições diretas in situ, incluindo sistemas de covariância de vórtices (eddy covariance), inventários florestais contínuos e amostragens estratificadas de carbono do solo. Este nível corresponde ao que o Carbonômetro classifica como "inventário formal de campo" e está necessariamente além do escopo da triagem preliminar.
A contabilidade territorial de carbono serve a propósitos que transcendem a certificação de créditos. Ela alimenta os inventários nacionais de GEE reportados à UNFCCC; subsidia o planejamento de restauração florestal e o alcance das metas da Contribuição Determinada Nacionalmente (NDC) brasileira; orienta a alocação de recursos de fundos climáticos como o Fundo Verde para o Clima e o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima; e fundamenta demandas de pagamento por serviços ambientais no âmbito da Lei nº 14.119/2021 (BRASIL, 2021). No contexto do Semiárido, ela constitui a base analítica indispensável para que o potencial climático da Caatinga seja reconhecido e remunerado por mecanismos formais.
2.2 Metodologias de Certificação Internacional
O mercado voluntário de carbono opera por meio de padrões internacionais independentes que definem requisitos metodológicos, de MRV e de governança para a emissão de créditos negociáveis. O Carbonômetro avalia a adequação de quatro metodologias principais ao contexto do Semiárido brasileiro.
O Verra VCS (Verified Carbon Standard) é o maior padrão do mercado voluntário, com mais de 1.900 projetos certificados e mais de 900 milhões de VCUs (Verified Carbon Units) emitidos até 2024 (VERRA, 2024). Para projetos florestais, as metodologias mais aplicáveis ao Semiárido são a VM0015 (evitar desmatamento não planejado) e a VM0032 (REDD+ em florestas tropicais), que exigem demonstração de adicionalidade por análise de ameaças, linha de base de desmatamento documentada e verificação periódica por Entidade Operacional Designada (DOE) acreditada. A partir de 2024, o VCS integrou o módulo de Paisagens e Biota Ameaçadas (LTPD), que facilita o reconhecimento de co-benefícios de biodiversidade — relevante para a Caatinga, bioma ameaçado com 42,6% de sua cobertura original já convertida (MMA, 2023).
O ART TREES (Architecture for REDD+ Transactions) é o padrão de credenciamento para programas jurisdicionais de REDD+, operando em escala de estado ou país em vez de projeto isolado (ART, 2021). Esta abordagem é considerada metodologicamente superior para lidar com os problemas de vazamento (leakage) e permanência que afetam projetos de escala reduzida, pois contabiliza fluxos de carbono em toda a jurisdição, minimizando a possibilidade de que a conservação em uma área apenas desloque o desmatamento para outra. Para a região da Serra do Teixeira, onde a coerência ecológica supramunicipal é marcante, o ART TREES representa o caminho de maior rigor metodológico e menor risco de contestação.
O Gold Standard foi criado por consórcio de ONGs ambientalistas como resposta à percepção de qualidade insuficiente de projetos MDL do Protocolo de Quioto. O padrão distingue-se pela ênfase obrigatória em co-benefícios sociais e no alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), exigindo demonstração de impactos positivos em ao menos três dimensões do desenvolvimento sustentável (GOLD STANDARD, 2022). Para territórios do Semiárido com alta vulnerabilidade social, o Gold Standard confere ao projeto uma narrativa de desenvolvimento que amplia sua atratividade junto a compradores corporativos comprometidos com agendas ESG.
O REDD+ Jurisdicional constitui a implementação do mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal em escala subnacional, articulado ao Artigo 6 do Acordo de Paris. No Brasil, a aprovação da Lei nº 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), cria o ambiente regulatório para que reduções de emissões florestais verificadas em escala jurisdicional se integrem ao mercado regulado nacional e aos mecanismos internacionais de transferência de resultados de mitigação (BRASIL, 2024). A Paraíba, ao estruturar um nível de referência estadual para a Caatinga, poderia acessar tanto o mercado voluntário quanto os mecanismos regulados do SBCE.
Em todas as quatro metodologias, a validação e verificação por terceira parte independente e acreditada é requisito inegociável para a emissão de créditos. Esta exigência não pode ser suprida por nenhuma ferramenta digital de triagem, inclusive o Carbonômetro.
2.3 Triagem versus Certificação: Distinções Conceituais
A confusão entre triagem climática e certificação de carbono não é apenas um problema técnico: é um risco de integridade para o mercado voluntário. Estimativas de triagem utilizadas como se fossem créditos certificados, ou metodologias de triagem comercializadas com linguagem que sugere precisão que não possuem, geram créditos contestáveis que, quando revelados como inconsistentes em auditorias independentes, alimentam o ciclo de desconfiança que corrói a credibilidade do mercado (ECOSYSTEM MARKETPLACE, 2024).
A triagem climática é, por definição, uma avaliação preliminar de ordem de grandeza realizada com dados secundários e fatores de referência publicados. Seu produto é uma estimativa com intervalo de incerteza explícito — tipicamente ±40% a ±60% do valor central —, não um valor preciso. Seu custo é baixo, seu prazo é curto (dias a semanas) e seu propósito é responder a duas perguntas práticas: "Existe potencial suficiente para justificar o investimento em inventário formal?" e "Quais metodologias de certificação seriam mais adequadas ao contexto?"
A certificação plena é estruturalmente diferente em todos os seus elementos constitutivos. Requer inventário florestal de campo com parcelas amostrais georeferenciadas e estatisticamente representativas; medição direta de biomassa acima e abaixo do solo, necromassa, serrapilheira e carbono orgânico do solo; documentação e modelagem da linha de base de emissões; análise de adicionalidade; avaliação de riscos de vazamento e permanência; validação do desenho do projeto por auditor acreditado; e verificação periódica de campo (VERRA, 2024; IPCC, 2019). Seu custo típico para projetos na Caatinga varia entre R$ 500.000 e R$ 3.000.000, e seu prazo pode alcançar 36 meses desde o início dos trabalhos de campo até a emissão do primeiro lote de créditos.
Entre estes dois polos — triagem de dados secundários e certificação plena — existe um espaço de etapas intermediárias que o Carbonômetro ajuda a mapear: inventário florestal piloto, análise de adicionalidade preliminar, consulta a especialistas em metodologia VCS, e estruturação da governança jurídica do projeto. Ao sequenciar corretamente estas etapas e ao situar cada uma delas no nível de custo e incerteza que lhe é próprio, o Carbonômetro cumpre sua função essencial de reduzir o risco de investimento na jornada rumo à certificação.
3 O MODELO DO CARBONÔMETRO
3.1 Arquitetura do Sistema
O Carbonômetro está implementado como módulo da plataforma U.S.E. (Unidade de Serviços Ecossistêmicos), sistema integrado de MRV desenvolvido pelo Programa USECO₂ para apoiar municípios e territórios do Semiárido brasileiro. A plataforma compreende módulos complementares de inventário de emissões, contabilidade de resíduos sólidos, regularização fundiária e mercados ambientais, com o Carbonômetro responsável pela camada de triagem do potencial de carbono florestal e do solo (USECO₂, 2025).
A arquitetura do Carbonômetro organiza-se em quatro camadas funcionais sequenciais. A camada de ingestão de dados recebe informações obrigatórias — área total da unidade de análise em hectares, cobertura vegetal atual por fitofisionomia, localização geográfica, regime hídrico e histórico de uso do solo — e informações opcionais que refinam as estimativas, como densidade volumétrica de biomassa de estudos anteriores, análises de carbono orgânico do solo, dados de sensoriamento remoto recente (índices NDVI e NDRE derivados de imagens Sentinel-2 ou Landsat) e histórico de incêndios e desmatamento derivado do MapBiomas (MAPBIOMAS, 2023).
A camada de processamento e estimativa aplica as taxas de referência específicas da fitofisionomia e do regime hídrico identificados, gerando três cenários de Remoção Anual Estimada (RAE): conservador, central e otimista. Para a Caatinga, o modelo utiliza quatro faixas de referência, calibradas a partir da revisão sistemática da literatura científica regional e das diretrizes do IPCC:
- Caatinga hiperxerófila (precipitação < 500 mm/ano): 1,5–3,0 tCO₂/ha/ano
- Caatinga mesofítica e zona de transição (precipitação 500–800 mm/ano): 2,5–5,0 tCO₂/ha/ano
- Caatinga serrana e brejos de altitude (precipitação > 800 mm/ano, altitude > 800 m): 5,0–7,0 tCO₂/ha/ano
- Piso IPCC Tier 1 sem dados locais: 1,72 tCO₂/ha/ano (biomassa acima do solo apenas)
A camada de diagnóstico de insuficiências avalia sistematicamente quais variáveis são inobserváveis a partir de dados secundários e constituem fontes de incerteza material. O sistema emite alertas estruturados em três categorias: (A) insuficiência crítica, quando dado ausente impede qualquer estimativa confiável; (B) insuficiência relevante, quando dado ausente amplia significativamente a incerteza mas não invalida a estimativa; e (C) insuficiência secundária, quando dado cujo preenchimento refinaria a estimativa, mas cuja ausência não compromete a qualidade do relatório de triagem.
A camada de geração de outputs consolida estimativas, diagnósticos e recomendações no Relatório de Elegibilidade Climática (REC), descrito na seção 3.3, e em arquivos de dados estruturados em formato compatível com os sistemas de registro Verra e com a plataforma do SBCE.
3.2 Variáveis, Fórmulas e Fatores de Conversão
A variável central do Carbonômetro é a Remoção Anual Estimada (RAE), expressa em toneladas de CO₂ equivalente por ano (tCO₂e/ano). A fórmula base é:
RAE = A × T
onde A é a área elegível em hectares e T é a taxa de referência de remoção em tCO₂e/ha/ano, selecionada conforme fitofisionomia e regime hídrico identificados na camada de ingestão.
A área elegível é derivada da área total da unidade de análise, subtraídas as áreas com cobertura vegetal nativa em estado de maturidade sem ameaça demonstrável de desmatamento (que não constituem adicionalidade), as áreas urbanas, as áreas de uso intensivo do solo e as áreas já cobertas por projetos de carbono registrados. O Carbonômetro aplica um proxy simplificado de adicionalidade baseado na taxa histórica de desmatamento extraída do MapBiomas — se a taxa for nula ou inferior a 0,1% da cobertura por ano nos últimos cinco anos, o sistema emite alerta de risco de não-adicionalidade, recomendando análise jurídica especializada antes do avanço à certificação.
O fator de conversão carbono/CO₂ utilizado quando as estimativas são expressas em termos de carbono elementar (tC) é o quociente molecular padrão:
1 tC = 44/12 tCO₂ = 3,667 tCO₂
Este fator decorre das massas atômicas e moleculares: carbono possui massa atômica de 12 g/mol e dióxido de carbono possui massa molecular de 44 g/mol (12 + 2 × 16 = 44). Toda medição de estoque ou fluxo expressa em carbono elementar deve ser multiplicada por 3,667 para conversão a CO₂ equivalente.
Para estimativas derivadas de medições de biomassa seca (tMS), a cadeia de conversão completa é:
tCO₂e = tMS × 0,47 × 3,667
onde 0,47 é a fração padrão de carbono na biomassa florestal seca, valor IPCC (2019) para florestas tropicais. O produto dos dois fatores resulta em 0,47 × 3,667 ≈ 1,72, coeficiente que, aplicado ao incremento médio de 1,0 tMS/ha/ano do Tier 1, gera o piso conservador de 1,72 tCO₂/ha/ano.
Para a geração de cenários, o Carbonômetro calcula três estimativas com premissas explícitas:
- Cenário conservador: A × T_mín, onde T_mín é a taxa mínima da faixa fitofisionômica identificada
- Cenário central: A × T_med, onde T_med é a média aritmética da faixa
- Cenário otimista: A × T_máx, onde T_máx é a taxa máxima da faixa, condicionado à disponibilidade de dados de suporte que confirmem condições favoráveis
O sistema também calcula o Potencial de Estoque Acumulado (PEA) para horizontes de 10 e 30 anos, assumindo regeneração contínua sem perturbação e aplicando fator de desconto de permanência mínimo de 15%:
PEA(n) = RAE × n × (1 – Buffer)
O buffer mínimo de 15% é intencionalmente conservador para fins de triagem. As metodologias formais de certificação aplicam buffers tipicamente entre 10% e 40% dependendo do perfil de risco do projeto, valor que somente pode ser precisamente determinado com análise completa de permanência realizada durante o processo de validação.
3.3 Outputs do Carbonômetro
O principal produto do Carbonômetro é o Relatório de Elegibilidade Climática (REC), documento estruturado que consolida os resultados da triagem e orienta os próximos passos. O REC compreende seis seções obrigatórias.
A Seção 1 — Identificação da Unidade de Análise registra denominação, localização geográfica, área total e área elegível, municípios e estado, bioma e fitofisionomia predominante, regime hídrico e histórico de uso do solo disponível.
A Seção 2 — Estimativas de Remoção apresenta os três cenários com as taxas de referência aplicadas, justificativa fundamentada da seleção das taxas, cadeia completa de fórmulas e fatores de conversão utilizados, e Potencial de Estoque Acumulado para os horizontes de 10 e 30 anos.
A Seção 3 — Diagnóstico de Insuficiências de Dados lista, por categoria (A, B e C), as insuficiências identificadas, o impacto estimado de cada insuficiência sobre as estimativas e o procedimento recomendado para supri-la — com indicação do perfil técnico do responsável e da ordem de grandeza de custo.
A Seção 4 — Indicação de Metodologias Adequadas apresenta análise comparativa das metodologias Verra VCS, ART TREES, Gold Standard e REDD+ Jurisdicional quanto à adequação ao contexto específico avaliado, com recomendação fundamentada da metodologia primária e alternativa.
A Seção 5 — Classificação de Elegibilidade enquadra a área em uma de quatro categorias: (i) Elegível para certificação imediata; (ii) Elegível condicionado ao inventário de campo; (iii) Potencialmente elegível com redesenho do escopo; ou (iv) Não elegível na configuração atual, com recomendações de melhoria.
A Seção 6 — Próximos Passos Recomendados apresenta plano de ação sequenciado para áreas com sinalização positiva, incluindo escopo mínimo do inventário de campo, perfil do auditor independente necessário, cronograma indicativo de 24 a 36 meses e estimativa de custo por etapa.
O REC é gerado automaticamente pelo sistema, mas pode ser revisado e complementado por técnicos do Programa USECO₂ antes de seu uso como documento de suporte à decisão municipal. A versão técnica inclui metadados completos de cada fonte de dados utilizada e os intervalos de confiança das estimativas, garantindo rastreabilidade e auditabilidade do processo de triagem.
4 APLICAÇÃO AOS MUNICÍPIOS DA SERRA DO TEIXEIRA
4.1 Caracterização do Território
A Serra do Teixeira, localizada no extremo oeste do Agreste paraibano, sobre o Planalto da Borborema, constitui um dos territórios de maior potencial para projetos de carbono florestal no estado da Paraíba. A região compõe-se de 12 municípios — Serra Branca, Teixeira, Matureia, Água Branca, Cacimbas, Mãe d'Água, Imaculada, Tavares, e municípios adjacentes — com população total de 84.746 habitantes, Produto Interno Bruto agregado de R$ 838,5 milhões e Índice de Desenvolvimento Humano médio de 0,568 (IBGE, 2022). O perfil socioeconômico caracteriza-se por alta dependência de transferências governamentais, baixa diversificação produtiva e limitada capacidade de investimento municipal em infraestrutura técnica ambiental.
O território apresenta forte heterogeneidade bioclimática condicionada pelo gradiente altitudinal. A altitude eleva-se progressivamente de 300 m nas baixadas do Sertão a mais de 1.100 m nos pontos culminantes da Serra, criando diferencial pluviométrico expressivo: precipitações de 400–600 mm/ano nas áreas de baixada contrastam com 900–1.200 mm/ano nas vertentes úmidas serranas, onde microclimas de Caatinga arbórea densa e brejos de altitude sustentam fitofisionomias estruturalmente mais complexas e produtivas do ponto de vista de estoque de carbono (SUDENE, 2017; VELOSO et al., 1991). Esta heterogeneidade é o principal argumento para a segmentação zonal adotada pelo Carbonômetro em sua aplicação à região.
O contexto fundiário é marcado pela combinação de pequenas propriedades familiares, comunidades quilombolas, assentamentos de reforma agrária e uma unidade de conservação federal de proteção integral: o Parque Nacional Serra do Teixeira, criado pelo Decreto Federal de 12 de dezembro de 2020, com 61.095 hectares de Caatinga serrana em diferentes estágios de conservação. O PARNA constitui o principal ativo ambiental do território e o objeto central desta aplicação do Carbonômetro.
4.2 Triagem Carbonométrica do PARNA Serra do Teixeira
A aplicação do Carbonômetro ao PARNA Serra do Teixeira utilizou como dados de entrada as informações geoespaciais disponíveis no MapBiomas, Coleção 8 (2023), complementadas por dados de pluviometria da Agência Nacional de Águas (ANA) e informações fitofisionômicas da literatura regional. Com base nestes dados, o modelo segmentou a área do Parque em três zonas de referência:
- Zona I — Caatinga arbustiva de baixada (estimativa de 18.400 ha, 30% da área): precipitação < 600 mm/ano, taxa de referência 1,5–3,0 tCO₂/ha/ano
- Zona II — Caatinga arbórea de meia encosta (estimativa de 24.400 ha, 40% da área): precipitação 600–900 mm/ano, taxa de referência 2,5–5,0 tCO₂/ha/ano
- Zona III — Caatinga serrana densa e brejos de altitude (estimativa de 18.300 ha, 30% da área): precipitação > 900 mm/ano, altitude > 800 m, taxa de referência 5,0–7,0 tCO₂/ha/ano
A segmentação zonal é necessariamente aproximada nesta fase de triagem, pois um mapeamento fitofisionômico de alta resolução — compatível com escala 1:25.000 — não está disponível para toda a área do Parque. Esta é uma das insuficiências categoria B identificadas pelo sistema, que a registra no REC como dado cuja obtenção refinaria significativamente as estimativas, mas cuja ausência não invalida a triagem.
Os cálculos de Remoção Anual Estimada por cenário resultam nos seguintes valores:
Cenário conservador (taxas mínimas de cada zona):
- Zona I: 18.400 ha × 1,5 tCO₂/ha/ano = 27.600 tCO₂e/ano
- Zona II: 24.400 ha × 2,5 tCO₂/ha/ano = 61.000 tCO₂e/ano
- Zona III: 18.300 ha × 5,0 tCO₂/ha/ano = 91.500 tCO₂e/ano
- Total conservador: 180.100 tCO₂e/ano (≈ 0,18 MtCO₂e/ano)
Cenário central (médias de cada zona):
- Zona I: 18.400 ha × 2,25 tCO₂/ha/ano = 41.400 tCO₂e/ano
- Zona II: 24.400 ha × 3,75 tCO₂/ha/ano = 91.500 tCO₂e/ano
- Zona III: 18.300 ha × 6,0 tCO₂/ha/ano = 109.800 tCO₂e/ano
- Total central: 242.700 tCO₂e/ano (≈ 0,24 MtCO₂e/ano)
Cenário otimista (taxas máximas de cada zona):
- Zona I: 18.400 ha × 3,0 tCO₂/ha/ano = 55.200 tCO₂e/ano
- Zona II: 24.400 ha × 5,0 tCO₂/ha/ano = 122.000 tCO₂e/ano
- Zona III: 18.300 ha × 7,0 tCO₂/ha/ano = 128.100 tCO₂e/ano
- Total otimista: 305.300 tCO₂e/ano (≈ 0,31 MtCO₂e/ano)
Adicionando o potencial de restauração das áreas degradadas dentro do PARNA — estimadas em aproximadamente 12.000 ha passíveis de regeneração conduzida, certificáveis pelas metodologias Verra VM0032 ou VM0047 com taxa conservadora de 1,5–2,0 tCO₂/ha/ano em primeiros dez anos —, o cenário máximo expandido pode alcançar até 0,43 MtCO₂e/ano, valor que corresponde ao limite superior do intervalo indicado no resumo deste artigo.
A verificação de consistência pelo piso IPCC Tier 1, aplicando 1,72 tCO₂/ha/ano à área total de 61.095 ha sem segmentação, resulta em aproximadamente 105.000 tCO₂e/ano — valor coerente com o limite inferior do cenário conservador zonal (180.100 tCO₂e/ano), confirmando que as estimativas zonais, ao incorporarem a heterogeneidade bioclimática, são mais representativas do que o fator único nacional, porém sempre acima do piso garantido pelo Tier 1.
4.3 Diagnóstico de Insuficiências e Sinalização de Elegibilidade
O relatório de elegibilidade climática gerado pelo Carbonômetro para o PARNA Serra do Teixeira apresenta a seguinte sinalização: Elegível condicionado ao inventário de campo, com as seguintes insuficiências identificadas.
Na categoria A (críticas): ausência de inventário florestal com parcelas permanentes no interior do PARNA; ausência de plano de manejo aprovado para a unidade (em elaboração na data de geração do relatório); ausência de linha de base de desmatamento sistematizada por metodologia compatível com os requisitos do Verra VCS. Estas três insuficiências impedem o avanço direto à certificação sem que sejam sanadas.
Na categoria B (relevantes): ausência de dados de carbono orgânico do solo para os tipos de solo predominantes (Neossolo Regolítico, Argissolo e Latossolo), estimados em representar 35%–55% do estoque total de carbono do ecossistema; mapeamento fitofisionômico de alta resolução inexistente para toda a área do PARNA; ausência de análise formal de adicionalidade considerando as especificidades de uma unidade de conservação federal já legalmente protegida.
Na categoria C (secundárias): dados de biomassa abaixo do solo para espécies dominantes da Caatinga serrana disponíveis na literatura, mas com variabilidade que recomenda verificação local; ausência de monitoramento sistemático de focos de incêndio internos ao PARNA nos últimos dez anos.
Quanto à metodologia de certificação, o Carbonômetro recomenda como primária o ART TREES (abordagem jurisdicional), fundamentado na escala territorial supramunicipal da região, na presença do PARNA como âncora territorial de proteção integral e na necessidade de abordar o vazamento potencial nos municípios do entorno. Como alternativa, a metodologia Verra VCS VM0032 é indicada para faseamento gradual por zonas ou para projetos piloto em áreas específicas de maior densidade de carbono, contando com maior experiência de implementação no Brasil e VVBs credenciados já presentes no mercado nacional.
4.4 Exercício de Viabilidade Econômica
Para subsidiar a decisão municipal sobre o investimento em inventário formal, o Carbonômetro realiza exercício preliminar de viabilidade econômica baseado em preços históricos do mercado voluntário de carbono. Utilizando o preço médio de referência de USD 15,00/tCO₂e para créditos florestais tropicais com co-benefícios de biodiversidade certificados — valor conservador em relação ao intervalo de USD 10–25 observado em 2024 — e aplicando buffer de permanência de 20%, os cenários de receita bruta potencial anual são:
- Cenário conservador: 0,18 MtCO₂e × 0,80 × USD 15,00 = USD 2,16 milhões/ano
- Cenário central: 0,24 MtCO₂e × 0,80 × USD 15,00 = USD 2,88 milhões/ano
- Cenário otimista: 0,31 MtCO₂e × 0,80 × USD 15,00 = USD 3,72 milhões/ano
Descontando-se custos estimados de certificação, monitoramento e verificação anual de USD 0,8–1,2 milhão, a receita líquida potencial no cenário central situa-se entre USD 1,68 e 2,08 milhões por ano. Para os 12 municípios da região, distribuída em mecanismo de compartilhamento de benefícios que remunere o poder público, as comunidades do entorno e os operadores do projeto, essa receita representa aporte financeiro significativo — da ordem de R$ 8–10 milhões anuais na taxa de câmbio corrente — para territórios com orçamentos municipais médios de R$ 15–25 milhões.
O Carbonômetro reitera que estes valores têm caráter estritamente indicativo. A receita efetiva depende da conclusão de inventário de campo, da validação por auditor independente, da aprovação do projeto pela metodologia de certificação escolhida e das condições de mercado vigentes no momento da venda dos créditos. O exercício de viabilidade cumpre apenas a função de sinalizar se o potencial indicado justifica o investimento nas etapas seguintes — e, no caso da Serra do Teixeira, a resposta é afirmativa.
5 LIMITAÇÕES E RECOMENDAÇÕES
5.1 Limitações Metodológicas do Carbonômetro
A principal limitação do Carbonômetro é inerente à sua natureza: as estimativas são tão confiáveis quanto a qualidade dos dados secundários disponíveis e a representatividade regional dos fatores de referência utilizados. Para a Caatinga serrana — fitofisionomia de maior potencial de carbono e maior relevância para a Serra do Teixeira —, a literatura científica disponível é ainda escassa quando comparada à Caatinga de baixada, onde a maioria dos estudos de campo foi conduzida (SAMPAIO; COSTA, 2011; LIMA et al., 2019). Esta assimetria de conhecimento científico gera incerteza estrutural nas estimativas para zonas serranas que o Carbonômetro não pode resolver internamente.
Uma segunda limitação refere-se à adicionalidade. O Carbonômetro utiliza taxa histórica de desmatamento como proxy, mas não avalia a adicionalidade de políticas — ou seja, se a área seria protegida por força de lei independentemente do projeto. Para o PARNA Serra do Teixeira, unidade de conservação de proteção integral já criada por decreto federal, este é um ponto crítico: as metodologias de certificação exigem demonstração de que a conservação não ocorreria na ausência do projeto, análise que envolve cenários contrafactuais complexos sobre o enforcement ambiental real na área. O Carbonômetro sinaliza este risco no REC mas não o resolve — esta análise requer expertise jurídica e metodológica especializada.
A terceira limitação diz respeito aos riscos climáticos de longo prazo. As projeções do IPCC (2021) indicam aumento de temperatura entre 2,5°C e 4,0°C no Semiárido brasileiro até 2100 no cenário de altas emissões, com aumento na frequência e intensidade de secas severas. Esta perspectiva representa risco material para a permanência dos estoques de carbono na Caatinga — risco que as metodologias formais abordam mediante buffer de permanência, mas que o Carbonômetro incorpora apenas de forma qualitativa, sem modelagem probabilística.
A quarta limitação é a ausência de módulo de carbono orgânico do solo. O COS pode representar entre 40% e 65% do estoque total de carbono em ecossistemas de Caatinga, especialmente em solos de textura mais fina e em áreas de acumulação de serrapilheira (MAIA et al., 2010). A ausência de um módulo específico para COS significa que o Carbonômetro subestima sistematicamente o estoque total de carbono — o que é conservador do ponto de vista metodológico, mas pode subrepresentar o potencial real de territórios com solos de alta capacidade de armazenamento.
5.2 Recomendações para Certificação Plena
Para áreas que receberem sinalização de elegibilidade positiva no Carbonômetro, o processo de avanço para certificação plena deve seguir sequência mínima de cinco etapas. A primeira etapa é a realização do inventário florestal de campo, com implantação de parcelas permanentes de monitoramento em número estatisticamente suficiente por fitofisionomia — mínimo de 30 parcelas por estrato para atingir intervalo de confiança de 95% — com medição de DAP, altura, identificação taxonômica das espécies dominantes, coleta de amostras de biomassa subterrânea e análise de carbono orgânico do solo. Esta etapa é o núcleo metodológico insubstituível de qualquer processo de certificação.
A segunda etapa é a contratação de Validation and Verification Body (VVB) acreditado pelo padrão de certificação escolhido. No Brasil, Bureau Veritas, SGS, DNV e RINA são os principais VVBs credenciados pelo Verra. A fase de validação — que precede a emissão dos primeiros créditos — tipicamente demanda 6–12 meses e inclui revisão do PDD, visita de campo e análise documental.
A terceira etapa é a elaboração do Documento de Descrição do Projeto (PDD), documento técnico que detalha a área, a linha de base, o cenário do projeto, a metodologia de monitoramento, o plano de permanência, a análise de adicionalidade e o processo de consulta às comunidades afetadas. Para o PARNA Serra do Teixeira, esta etapa exige articulação direta com o ICMBio, gestor federal da unidade, e com as prefeituras dos municípios do entorno.
A quarta etapa é o registro do projeto na plataforma do padrão de certificação escolhido e a implementação do sistema de monitoramento periódico, com remonitoramento mínimo a cada cinco anos para manutenção das verificações e emissão de novos lotes de créditos.
A quinta etapa, frequentemente negligenciada em projetos brasileiros, é a estruturação da governança jurídica e do mecanismo de compartilhamento de benefícios — definição da pessoa jurídica responsável pelo projeto, dos contratos com as comunidades do entorno, do modelo de repartição de receitas e do mecanismo de prestação de contas pública. Esta etapa é condição de legitimidade social e fator determinante da sustentabilidade de longo prazo do projeto (SALZMAN et al., 2018).
5.3 Recomendações de Política Pública para o Semiárido
Para que o Carbonômetro cumpra seu potencial de instrumento de planejamento territorial em escala, é necessário que seu uso seja integrado às políticas públicas municipais e estaduais. Recomenda-se, em primeiro lugar, a inclusão do módulo de triagem climática nos processos de elaboração dos Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS) e dos Planos de Adaptação e Mitigação Climática Municipal, aproveitando o arcabouço normativo da Lei nº 14.026/2020 e do SBCE para institucionalizar o diagnóstico climático como etapa prévia obrigatória ao planejamento ambiental.
Recomenda-se, em segundo lugar, a criação de mecanismo de financiamento estadual para inventários florestais municipais priorizados por triagem carbonométrica positiva — potencialmente vinculado ao Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima) ou ao Programa de Pagamento por Serviços Ambientais da Paraíba (PEPSA-PB, Lei Estadual nº 10.165/2013). A triagem centralizada e a priorização objetiva de territórios com maior potencial climático reduziria significativamente o custo médio por hectare inventariado ao concentrar recursos em áreas com maior probabilidade de retorno econômico.
Recomenda-se, em terceiro lugar, a articulação entre o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o Carbonômetro, de modo que as informações de APPs e Reservas Legais registradas no SICAR alimentem automaticamente os dados de entrada da ferramenta, elevando a precisão das estimativas sem custo adicional para os municípios. Esta integração técnica, dependente de cooperação entre o Serviço Florestal Brasileiro e o Programa USECO₂, está identificada como prioridade de desenvolvimento na roadmap da plataforma U.S.E.
Finalmente, qualquer projeto de carbono que venha a ser desenvolvido com base em resultados do Carbonômetro na Serra do Teixeira ou em qualquer outro território do Semiárido deve ser precedido de processo de consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais — quilombolas, comunidades de fundo de pasto e agricultores familiares — cujos territórios se sobreponham à área de projeto, em conformidade com a Convenção nº 169 da OIT e com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal sobre direitos territoriais de povos e comunidades tradicionais (BRASIL, 1988; OIT, 1989).
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Carbonômetro foi concebido para preencher uma lacuna metodológica específica no ecossistema de ferramentas de governança climática municipal: a ausência de instrumentos de triagem que sejam ao mesmo tempo tecnicamente fundamentados, operacionalmente acessíveis e eticamente honestos sobre suas limitações. Em um contexto onde o crescimento do interesse pelo mercado voluntário de carbono gera proliferação de ferramentas de estimativa de qualidade heterogênea, posicionar-se explicitamente como triagem preliminar — e não como certificação — é tanto uma escolha metodológica quanto um compromisso de integridade.
A fundamentação teórica desenvolvida nas seções anteriores demonstra que a distinção entre triagem e certificação não é apenas técnica: é epistemológica. Uma triagem que se apresenta como mais precisa do que pode ser gera expectativas irrealistas, induz decisões de investimento equivocadas e, no limite, compromete a credibilidade do mercado voluntário de carbono. O Carbonômetro adota a postura oposta: suas estimativas são conservadoras, seus intervalos de incerteza são explícitos, e seu relatório de elegibilidade é deliberadamente claro sobre o que a ferramenta pode e não pode afirmar.
A aplicação ao Parque Nacional Serra do Teixeira demonstra a utilidade prática do modelo. O intervalo indicativo de 0,09 a 0,43 MtCO₂e/ano — com ponto central de aproximadamente 0,24 MtCO₂e/ano no cenário central — é suficientemente expressivo para justificar o investimento em inventário de campo e as etapas subsequentes de certificação, ainda que a incerteza associada seja substancial. A sinalização de elegibilidade positiva, condicionada ao inventário, cumpre precisamente sua função: orienta a decisão sem substituir o conhecimento que somente a medição direta pode produzir.
A escalabilidade do Carbonômetro para os 223 municípios da Paraíba e para os demais estados do Semiárido depende de três condições fundamentais. A primeira é a atualização contínua dos fatores de referência com base em novos estudos de campo na Caatinga, especialmente nas fitofisionomias serranas e de brejo de altitude ainda subrepresentadas na literatura. A segunda é a integração com bases de dados geoespaciais de maior resolução, incluindo os dados GEDI (Global Ecosystem Dynamics Investigation) da NASA, disponíveis gratuitamente, que podem reduzir significativamente a incerteza das estimativas de biomassa acima do solo sem necessidade de inventário físico completo. A terceira é a capacitação técnica dos gestores municipais para interpretação e uso autônomo dos Relatórios de Elegibilidade Climática — requisito que demanda investimento em formação, que o Programa USECO₂ identifica como condição para a implementação bem-sucedida do modelo em escala territorial.
A Caatinga permanece sendo o bioma mais negligenciado nas políticas globais de carbono, apesar de abrigar uma das maiores extensões de floresta tropical seca do mundo e de concentrar populações que se encontram entre as mais vulneráveis à mudança do clima no hemisfério sul. O Carbonômetro é um instrumento de visibilização: traduz o capital climático latente das Caatingas em estimativas compreensíveis para gestores municipais, conecta territórios historicamente invisíveis ao radar das metodologias de certificação internacional e cria o mapa que indica onde vale a pena fazer a jornada do inventário e da certificação.
Esta jornada não é fácil nem barata. Mas sem um mapa confiável do ponto de partida, ela nem sequer começa. O Carbonômetro é esse mapa.
REFERÊNCIAS
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